Quinta-feira, Abril 25, 2024
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INFLEXÃO AO CURSO DO RIO

Texto.

Foto: Reprodução / Cânion do Rio Poti / Piauí

Sou rio, não sou máquina. Por isso faço caminho no andar, no sonhar e no velejar. O curso livre do rio passa por várias paisagens e vários atos, por várias estações, sejam elas secas, quentes e famintas, ou sejam elas viçosas, gordas e fartas, ele as vive de forma íntegra e inteira. Jamais se esquiva do que lhe apresenta durante a jornada para não se reportar ao passado e nem ao futuro, vive intensamente o presente, no presente. Se vai ao mar um dia chegar, isto não lhe pertence, não está no seu remar, mas deixa o tempo, que é sábio sabiá, cantar e determinar. O calendário é a bússola para nos situar e alumiar, devemos viver cada hora do dia, inteira, devemos viver um dia por vez, devemos viver uma semana por vez, devemos viver um mês por vez, devemos viver um ano por vez. Os tijolos são postos, um após o outro, até as paredes formar. Depois, os pregos, os caibros e as ripas para o teto firmar. Por fim, as telhas, uma após a outra, na medida certa, até o telhado fechar. Somos homens em construção de pegadas firmadas ao chão. Primeiro vem o buraco, depois a semente, as raízes, o caule, os galhos, as galhas, as folhas, as flores e os frutos para numa árvore findar. Somos seres em andamento. Somos homens inacabados. Somos uma espiga de milho, cheia de grãos de milho, cheia de tempo, de dias… A única constância nesta vida é a inconstância. Não sou trilho, por não ser máquina, nem ser linha de ferro. O trilho passa por várias estações de concreto cheias de corpos, nunca de gente. Chega sempre em horário e dia marcados, em lugares com nomes determinados e certos. Os trilhos são planos e enganos, não sobem morros nem descem serras, não regam as flores, nem engordam os peixes, não refletem a beleza da lua, nem o calor do sol. Uma vida fria, reta e calculada, sem emoções. Os trilhos são ferro, que carrega os trens que, também, são ferro e aço; que carregam homens que são, também, desertos. Os rios são vida que dão vidas, que dão vidas, que alimentam o povo, que é corpo e alma, que são flexíveis e podem, em ritmo de canoa, andar, pescar e sonhar.

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