A história de meninas do interior do Piauí pode ganhar as telas do mundo. O documentário “A Fabulosa Máquina do Tempo”, dirigido por Eliza Capai e gravado em Guaribas, no Sul do Estado, está entre os seis filmes pré-selecionados pela Academia Brasileira de Cinema para representar o Brasil no Oscar 2027, na categoria de Melhor Filme Internacional.
A relação foi divulgada nesta quarta-feira (9). O longa havia sido selecionado anteriormente entre os 15 filmes inscritos na disputa nacional e agora avançou para a fase decisiva. O filme escolhido para representar o país será anunciado no dia 16 de setembro.
Além da produção gravada no Piauí, também seguem na disputa “100 Dias”, de Carlos Saldanha; “A Natureza das Coisas Invisíveis”, de Rafaela Camelo; “Feito Pipa”, de Allan Deberton; “Nosso Segredo”, de Grace Passô; e “Vicentina Pede Desculpas”, de Gabriel Martins.
Meninas de Guaribas são protagonistas
“A Fabulosa Máquina do Tempo” acompanha meninas de Guaribas e utiliza suas experiências, brincadeiras e sonhos para construir uma narrativa que aborda temas como infância, desigualdade, machismo, religião, casamento e liberdade.
A diretora Eliza Capai conheceu Guaribas em 2013 e retornou ao município anos depois para acompanhar uma nova geração de meninas. A pesquisa que deu origem ao documentário começou em 2021 e resultou em uma oficina de audiovisual com 15 meninas, entre 7 e 12 anos.
Durante os encontros, elas participaram da criação das cenas e levaram para a produção experiências pessoais, desejos e reflexões sobre o futuro.
Para Eliza, o projeto ganhou uma dimensão maior do que a inicialmente imaginada.
“São meninas muito criativas, muito engraçadas, muito ousadas. Elas trouxeram um frescor para a narrativa. O filme fala da saída da miséria, mas também do direito de sonhar”, afirmou a diretora.
Sonhos que mudaram entre gerações
A produção também surgiu a partir da percepção da diretora sobre as diferenças entre as gerações de mulheres de Guaribas.
Ao retornar ao município, Eliza encontrou meninas que já imaginavam profissões e caminhos próprios, enquanto mulheres mais velhas relatavam uma realidade marcada por outras limitações.
“Eu escutava muitas mulheres da minha idade dizendo: ‘Eu vivi a escravidão’. Era muito duro ouvir isso. Elas falavam que, quando eram meninas, sonhavam em encontrar um bom marido que lhes desse valor. Já as crianças diziam que queriam ser médicas, advogadas, professoras. Sonhavam a partir delas mesmas”, relatou.
Produção ganhou reconhecimento internacional
Antes de chegar à disputa pelo Oscar, o documentário passou por importantes festivais no Brasil e no exterior.
No Cine PE, recebeu quatro prêmios, entre eles os de Melhor Direção, Melhor Trilha Sonora e Melhor Atriz, este último concedido coletivamente às jovens protagonistas.
Na Mostra Ecofalante, realizada em São Paulo, o filme foi escolhido como Melhor Longa-Metragem pelo voto popular e recebeu uma Menção Honrosa.
A produção também foi exibida no Festival de Berlim, na Alemanha, e no Festival Internacional de Cinema de Xangai, na China.
A participação em Berlim teve um significado especial para as protagonistas. Três das meninas viajaram pela primeira vez para fora do Brasil e também entraram pela primeira vez em uma sala de cinema.
Segundo Eliza, a sessão reuniu mais de mil pessoas e foi marcada por risadas e aplausos durante a exibição.
“Foi muito emocionante porque elas puderam ver como o mundo as enxerga: inteligentes, carismáticas e maravilhosas”, contou a diretora.
A participação no festival de Xangai também teve um significado simbólico. Durante as filmagens, uma das protagonistas, Tábata, havia contado que sonhava em abrir uma loja de doces na China. Anos depois, a produção levou a história da menina justamente para aquele país.
Com a nova etapa da seleção brasileira, Guaribas e as histórias de suas meninas ficam ainda mais próximas de ganhar projeção internacional, caso o documentário seja escolhido para representar o Brasil no Oscar 2027.


